ELPHIN, O AZARADO

por Janus

 

Gwyddno Garanir era o rei e senhor de Gwyned. Era um bom rei, amado sinceramente por aqueles a quem governava, mas ultimamente, sentindo o peso dos anos, começara a pensar em quem lhe poderia suceder. Tivera duas mulheres, que, entre as duas, haviam conseguido dar-lhe apenas um filho, Elphin.

Elphin era tido pela generalidade dos membros do clã, como o jovem mais azarado que já existira. Nada em que ele pusesse a mão prosperava e nada que tentasse fazer se concretizava.

Contavam-se histórias sobre a sua incrível falta de sorte de uma ponta à outra do reino.

As desgraças, grandes e pequenas, aconteciam a Elphin com uma certa regularidade.

Fosse como fosse, as hipóteses que Elphin tinha de vir a suceder a seu pai como governante eram extremamente reduzidas. Ninguém se deixaria guiar por um homem famoso pela sua pouca sorte e, para que um homem desses se tornasse rei, haveria, necessariamente, grandes conflitos dentro do clã. De facto, os seus membros haviam já começado a discutir entre si o problema e alguns dos mais velhos tinham por hábito fazer figas sempre que Elphin estava de costas para eles.

Gwydnno, que adorava o seu filho, decidiu que o ajudaria em tudo o que pudesse. O que precisava era de uma demonstração visível do oposto ao azar de Elphin.

Dentro de poucos dias celebrava-se-ia o Beltane, uma época do ano bastante oportuna . Um dia em que os rebanhos e os campos seriam abençoados e a Deusa-Terra importunada com súplicas e depois apaziguada a fim de assegurar uma farta colheita. Um dia de grande magia. Ora Gwydnno, conservava uma caniçada para apanhar salmão, o qual, fornecia de peixe a sua casa e rendia um bom lucro com os excedentes. Se nesse dia trouxesse da caniçada uma grande quantidade de salmão, isso seria bom augúrio para o próximo ano. E se o homem que trouxesse o salmão fosse Elphin, ninguém poderia chamar-lhe desafortunado.

Gwydnno percorreu a aldeia dirigindo-se para o grande carvalho que, erguendo-se no centro do castro, assinalava o local das assembleias. Deu a conhecer a todos eles, que nesse ano, o escolhido para a recolha do produto da caniçada seria o seu filho, pelo que palavras de desagrado foram proferidas por parte de alguns mais exaltados.

A caniçada do salmão serviria de teste a Elphin. Se ele trouxe-se uma boa pescaria é porque a maldição fora quebrada.

Na manhã da véspera de Beltane, nuvens negras escureceram o céu e a terra foi fustigada por rajadas de vento gelado que trazia o granizo e a neve dos lados do mar.

Ao contrário dos que o rodeavam, Elphin não parecia preocupar-se com a sua pouca sorte, mostrando-se até quase alheio a ela.

Sabia por experiência que as coisas acabariam por passar-se como estavam destinadas e nada que ele fizesse ou deixasse de fazer as modificaria.

Chegou à caniçada a meio da manhã e embora as nuvens se mantivessem sólidas e sombrias e a neve continuasse a cair pesadamente o vento abrandara.

Encaminhou-se para as águas passando cuidadosamente por cima dos rochedos molhados. A rede estava pesadamente mergulhada nas águas escuras e Elphin puxou-as com todas as suas forças. Mas ela saiu vazia.

Reparou no entanto que num dos cantos da caniçada se encontrava uma grande bolsa de couro. Tirando-a de dentro de água levou-a para um local seco. Pegando na sua faca, começou a cortar cuidadosamente a pele curtida e com as mãos trémulas, desatando as tiras, puxou para trás o canto da pele, descobrindo o corpo de um recém nascido.

Elphin olhou fixamente para o corpinho de rapaz magnificamente bem constituído. O cabelo era fino como a teia de uma aranha e caia-lhe como ouro para a testa alta. Os olhos fechados desenhavam duas meias luas perfeitas e as orelhas delicadas conchas. Não havia no corpinho qualquer defeito ou ferimento.

Não encontrando explicação para tal, senão a intervenção do povo das fadas ou mesmo de algum deus do outro mundo, segurou a criança nos braços durante muito tempo aquecendo-o com o calor do seu corpo.

Regressando a casa o mais rápido que conseguiu, logo foi ter com o seu pai.

O rei viu-se rodeado pela gentes do seu clan, curiosos pelo desenrolar dos acontecimentos. Entre eles encontrava-se o bardo Hafgan.

Elphin estendeu os braços, mostrando ao pai a bolsa. Gwyddno fez menção de pegar-lhe, mas Elphin não lha entregou e em vez disso, levantou a borda da pele de foca e puxou-a para que todos pudessem ver. Ao fazê-lo o sol jorrou através da cortina de nuvens. Uma chuva de luz branca e cintilante pareceu banhá-lo, iluminando o recém nascido que tinha nos braços.

Levantando o braço acima da sua cabeça Hafgan, o bardo, clamou para que todos o ouvissem que era Taliesin, o da fronte radiosa- visto que o rosto da criança cintilava como um clarão ao receber os raios do sol.

A criança acordou e começou a chora com fome. Elphin fitou-a impotentemente, mas Medhir, sua mãe, acorreu de imediato e tirando-lha dos braços, começou a embalá-la de encontro ao seu seio, comentando que a criança precisava era do leite de uma mãe.

Uma parente de Medhir foi chamada, uma jovem mãe cujo filho tinha nascido morto e se encontrava inconsolável. Tinha sido prometida a um homem , mas nunca chegaram a casar e como a criança nasceu morta, o acordo desfez-se.

Rhonwyn era uma jovem de rara beleza que fez o coração de Elphin bater mais rápido, ao que ela muito agradada ficou, logo pegando no pequeno Taliesin ao colo e lhe dando de mamar.

Rhonwyn demonstrou ser uma alma nobre, compreendendo bem o que Elphin sentia, pois a infelicidade também a tinha tocado.

Óptima cozinheira, cantava para Taliesin com uma voz de deusa e não tardou que Elphin se rendesse aos seus encantos e lhe pedisse para a desposar, ao que ela olhando para ele com os seus grandes olhos escuros lhe respondeu afirmativamente.

A boda de Elphin durou três dias, na manhã do quarto dia, Elphin levantou-se, vestiu-se rapidamente e saiu logo de casa. Reuniu os homens cuja mão dobra o pai lhe garantira e levou-os até ao local que escolhera para fazer a sua casa. A passo realizou as medições, deu ordens e os homens começaram a escavar – com pouco entusiasmo, pois não aprovaram o local que Elphin escolhera para a sua casa e censuraram todo o projecto, considerando-o desnecessário e muito provavelmente, malfadado.

Ele próprio escolheu o lugar da lareira. Pegando numa pá, saltou para dentro das fundações e começou a cavar. No entanto, a pá bateu nalguma coisa sólida e não se enterrou mais.

– Uma raiz velha – disse alguém com um risinho abafado – O melhor era fazer a cova para a lareira noutro sitio qualquer.

Mas Elphin continuou a cavar descobrindo uma grande caixa quadrada, de ardósia. Depois de a limpar completamente, levantou a tampa e viu um pedaço de tecido grosseiro e áspero.

O trapo imundo rasgou-se mal ele lhe tocou, mas debaixo dos pano viu um clarão amarelo. Os outros observavam-mo curiosos enquanto ele, de joelhos no chão, escavava na terra com as próprias mãos. Voltou a pegar na pá. Enterrou-a e voltou a puxá-la para fora. E lá estava, balouçando na ponta da estreita pá de madeira, um torque de ouro. Tinha a espessura de três cordões de ouro entrançados e os terminais formavam cabeças de animais, cinzeladas: um touro no da direita e um urso no da esquerda.

Tinha encontrado um torque de ouro, um torque de rei!

Elphin gritou bem alto e não tardou que quase todos os moradores da aldeia – incluindo Gwyddno e Hafgan – corressem a juntar-se à volta da escavação.

Hafgan, abrindo caminho por entre a multidão, perguntou os operários o que se tinha passado e se alguém tinha duvidas acerca do acontecido.

Os operários explicaram que assim era realmente. De como tudo se tinha passado. Perguntando ao druida o significado de tudo aquilo.

O significado era bem claro para Hafgan. O torque de um rei tinha sido encontrado numa antiga pedra de lareira. Ora a lareira de um rei situa-se na casa de um rei e quem vive na casa do rei é o próprio rei.

Devolvendo o torque a Elphin dirigiu-se a todos os que o rodeavam.

Proclamando bem alto que Elphin tinha descoberto o terceiro tesouro. Encontrou um filho virtuoso, uma esposa nobre e agora um torque de um rei. Quem agora lhe poderia chamar desventurado?

A partir daquele dia, que mais ninguém desacreditasse o nome de Elphin, pois ao fazê-lo estaria a atrair a desgraça sobre si próprio.

Todos presenciaram que a sina de Elphin tinha mudado e agora a sua sorte era tão grande como em tempos tinha sido a sua desventura. Assim se tornou o sucessor de seu pai e se tornou a seu tempo um rei bondoso e justo.

 

EISTEDDFOD | PROSA